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08/11/2010

Eu Preciso!


Preciso de um amor com a delicadeza de uma borboleta mas, com a consistência do Gore-Tex!
Que seja pegajoso como mel mas, que possua a fluidez de um rio sem medo de se lançar ao mar, sempre!
Que tenha a doçura de um morango e que traga consigo um mar salgado para navegarmos juntos.

Um amor que me consiga podar os defeitos e adubar as qualidades.
Que seja o meu petromax nas noites sem luar e o quente do sol nos dias sem fogueira no azul.
Que misture a sua sombra na minha, o seu mundo encostado ao meu, que divida o frio comigo.

Um amor que saiba pastorear os nossos sonhos e enxotar os pensamentos tristes.
Que me costure as feridas com o carinho de um alfaiate e que me regue todos os dias com a paciência de um jardineiro.
Que me faça batucar o coração e que me sacuda o sangue com a música da alegria.

Preciso de um amor que me engravide de céu e me salve nas suas asas de paz.
Um amor que me acaricie a alma e me faça cócegas no coração.
Preciso!

01/12/2009

Anjos Famintos


Hoje vou para o alto mar, pescar todas as estrelas do céu.
Vou devorá-las à dentada, para que brilhem todas dentro de mim.
Queres que te guarde algumas para ti?
Vou embrulhar cinco dentro de uma nuvem fofinha para que não se estraguem.
Depois sentámos-nos na lua e fazemos um piquenique no céu.
Traz uma garrafa de sede para me poderes beber completamente, e não te esqueças da toalha de espuma para não molharmos os pés.
Vou convidar alguns anjos para nos servirem este manjar dos deuses, e para te sussurrarem ao ouvido aquelas palavras que não consegues dizer-me.
Quando estiveres saciado, deitamos-nos na lua a ver o sol passar e o tempo a brilhar.
Depois, beija-me o coração devagar, como quem dança, para não o magoares.
Se me deixares, abraço-te a alma com a minha; um abraço forte, não vão os anjos querer levá-las!
...
Já estás a chegar não estás?
Já ouço o eco dos teus olhos...
Tem cuidado!
Não calques nenhuma estrela pelo caminho!
...
Chegás-te!
Estás tão bonito quanto esta mansidão de astros!
Mas...vens de branco? Porque vens vestido de espuma?
A toalha é que era de espuma...
Estás tão sublime, pareces um anjo! És um anjo?
Porque é que és um anjo? Mas os anjos não eram os convidados?
Que sorriso! Trazes sede na boca!
Porque não touxes-te água? A sede não vinha numa garrafa?
Beijas-me com sal...Mas beijaste-me os lábios...
O beijo não era no coração?
Sussurras baixinho... Dizes-me ao ouvido o que eu quero ouvir!
Porque me estás a arrepiar? Não eram os anjos que te iam falar?
Tens um olhar...Mas trazes estrelas nos olhos?
As estrelas não eram para comer?
Partes...
Espera!
Levas a minha alma contigo!
Porque é que a levas e deixas ficar a tua?
Não eram os anjos que as queriam levar?
...
Olhas para mim com estrelas nos olhos e sorris com sede na boca.
Do interior da tua roupa de espuma branca, ouve-se a tua voz que sussurra:
-Eu sou um anjo!
O meu eco responde:
-És como eu!

26/11/2009

Água pelos joelhos


A chuva chegou e trouxe com ela o inverno.
Trouxe também água, lama, problemas, inferno!
As pessoas arregaçam as calças e põem pés e mãos à obra...
A cidade tem água pelos joelhos; as casas ficam embriagadas de tanto a beberem.
Um pingo insignificante de gente, tenta apanhar as pingas de mais um temporal, de mais uma cheia.
Cheios de roupa ensopada e de alma desbotada, empacotam a esperança em caixotes molhados.
Com almas frágeis, assustadas pelo trabalho, metem os pés no lamaçal sem usarem galochas.
Ouvem-se vozes de lamentação, sente-se um odor a enxurro, a dissipação.
Vê-se chegar gente encharcada de convenções até à medula. São colarinhos brancos. Trazem uma indignação fingida. Vêem mais engalanados que os barcos dos pescadores. Estes, recebem-nos com um sorriso molhado e um coração arrebentado.
Prometem esperança e futuro para um local, onde a estabilidade que se vê é só de podridão.
Ouvem-se homens dizer:-"Tudo naufragado!"
Enrodilhados, queimados, com calos nas mãos e nas costas, sentam-se no parapeito da janela com água pelos joelhos.
Têm o coração roto e demasiadamente pesado de agonia para se manterem de pé.
No segundo andar, água fria roça os calcanhares das mulheres, e água quente roça o rosto de quem não quer deixar o lar.
Ouvem-se sirenes, e o choro de uma criança que não sabe do barco que o pai lhe deu:."Talvez esteja no rio meu filho! Ou até no mar!"
Chegam os embaixadores da amizade; os verdadeiros dadores de esperança. Comprometem a vida mas não prometem nada! Como os outros...
Fazem o que têm de fazer: ajudar, servir e até alegrar um menino que perdeu um barco.
Sentem-se maiores por o ajudarem a crescer, e vão-se embora, embora saibam que a tarefa deles não acaba ali.
Cabe-lhes uma vida cheia pela frente. Talvez uma vida com um final precoce, como o do barco, por causa dos rios, dos fogos, dos Homens.

Mas uma vida cheia da vida!