Hoje perguntaram-me:
-"E a vida, corre bem?"
E eu, cinicamente respondi:
-"Sim!"
Digo cinicamente, porque não é totalmente verdade mas também não deixa de ter uma parte verídica.
É que ela, a vida, realmente corre bem, bem depressa...
É mais rápida do que eu, pois não a consigo alcançar.
Eu também corro, mas mais devagar.
Com olhos baços e punhais de infelicidade espetados no peito, corro...
Corro por becos onde a morte anda a viver e a vida teima em desmaiar.
Corro, e pelo caminho encontro gente perdida que parte pão com facas de pobreza.
Corro, como o galopar de revolta de um cavalo que corre ao toque de chicotes de enfermidade.
Corro, e passo por almas baixas e espíritos curtos com corações pesados de agonia.
Corro, com estrelas de tristeza e veias trombóticas, sem saber o lado errado da vida.
Corro, e esqueço-me de viver!
Corro, só para não parar, e para não responder ainda mais cinicamente que "sim!"
E se eu me enforcasse um bocadinho???
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24/06/2011
06/12/2009
Quando escrevo...

Posso vestir-me com a roupa que quiser, ser mulher ou ser criança, ser herói ou não ter esperança.
Posso tirar do nada uma estrela apagada e, espremê-la na mão, deixá-la cair no chão.
Posso ser um choupo no Outono e ganhar flores, ter todas as cores mesmo sem conhecer nenhuma, tomar banho sem fazer espuma.
Posso apanhar de dentro da noite dois sóis, entre lençóis, que não queimam nem envelhecem.
Posso atirá-los ao mar e deixá-los borbulhar em ondas redondas, desarrumar o mundo, ter azeite no fundo.
Posso ser uma castanha a saltar no braseiro, abraçar sozinha o mundo inteiro, deixá-lo voar e torná-lo a caçar.
Posso sentir por atalhos, pousar em todos os galhos, como as aves sem abrigo, sem chaves e sem amigo.
Posso ser pirata, escrever com lápis de lata, fazer magia com potes de alegria, ser astronauta e só ter luas na pauta.
Posso comprar o anel de Saturno, brincar em qualquer turno, pegar no mundo ao colo até ele dormir, abrir os braços e fugir.
Posso ser borboleta nocturna, que não morre mesmo que durma, ou um morcego de alma fria e viver só de dia.
Posso ser rio que se lança ao mar sem nunca se afogar, passear pelo paraíso, perder todo o juízo.
Posso escangalhar a história na minha memória, e esvaziar vontades, meter glória, tirar saudades.
Posso passar a ferro personalidades encorrilhadas, estender almas molhadas, acampar em Marte, mas nunca deixar de amar-Te!
Posso tirar do nada uma estrela apagada e, espremê-la na mão, deixá-la cair no chão.
Posso ser um choupo no Outono e ganhar flores, ter todas as cores mesmo sem conhecer nenhuma, tomar banho sem fazer espuma.
Posso apanhar de dentro da noite dois sóis, entre lençóis, que não queimam nem envelhecem.
Posso atirá-los ao mar e deixá-los borbulhar em ondas redondas, desarrumar o mundo, ter azeite no fundo.
Posso ser uma castanha a saltar no braseiro, abraçar sozinha o mundo inteiro, deixá-lo voar e torná-lo a caçar.
Posso sentir por atalhos, pousar em todos os galhos, como as aves sem abrigo, sem chaves e sem amigo.
Posso ser pirata, escrever com lápis de lata, fazer magia com potes de alegria, ser astronauta e só ter luas na pauta.
Posso comprar o anel de Saturno, brincar em qualquer turno, pegar no mundo ao colo até ele dormir, abrir os braços e fugir.
Posso ser borboleta nocturna, que não morre mesmo que durma, ou um morcego de alma fria e viver só de dia.
Posso ser rio que se lança ao mar sem nunca se afogar, passear pelo paraíso, perder todo o juízo.
Posso escangalhar a história na minha memória, e esvaziar vontades, meter glória, tirar saudades.
Posso passar a ferro personalidades encorrilhadas, estender almas molhadas, acampar em Marte, mas nunca deixar de amar-Te!
29/11/2009
Uma opção de vida

Não sou dona de nenhuma fortuna.
Não tenho uma saúde de ferro.
Não sou a inteligência em pessoa.
Não tenho amigos até lhes perder a conta.
Não sou uma Julieta com todas as curvas perfeitas.
Não tenho um Romeu sempre à minha espera.
Não sou famosa em nenhuma terra.
Não tenho muitos familiares de quem me possa orgulhar.
Não sou nenhuma milionária.
Não tenho a melhor personalidade de sempre.
Não sou...
Não tenho...
E depois? Tenho o suficiente para ser feliz.
Tenho o suficiente para me rir realmente quando me apetece e não por hipocrisia.
Uma simples opção de vida?
Para mim já é a única!
26/11/2009
Água pelos joelhos

A chuva chegou e trouxe com ela o inverno.
Trouxe também água, lama, problemas, inferno!
As pessoas arregaçam as calças e põem pés e mãos à obra...
A cidade tem água pelos joelhos; as casas ficam embriagadas de tanto a beberem.
Um pingo insignificante de gente, tenta apanhar as pingas de mais um temporal, de mais uma cheia.
Cheios de roupa ensopada e de alma desbotada, empacotam a esperança em caixotes molhados.
Com almas frágeis, assustadas pelo trabalho, metem os pés no lamaçal sem usarem galochas.
Ouvem-se vozes de lamentação, sente-se um odor a enxurro, a dissipação.
Vê-se chegar gente encharcada de convenções até à medula. São colarinhos brancos. Trazem uma indignação fingida. Vêem mais engalanados que os barcos dos pescadores. Estes, recebem-nos com um sorriso molhado e um coração arrebentado.
Prometem esperança e futuro para um local, onde a estabilidade que se vê é só de podridão.
Ouvem-se homens dizer:-"Tudo naufragado!"
Enrodilhados, queimados, com calos nas mãos e nas costas, sentam-se no parapeito da janela com água pelos joelhos.
Têm o coração roto e demasiadamente pesado de agonia para se manterem de pé.
No segundo andar, água fria roça os calcanhares das mulheres, e água quente roça o rosto de quem não quer deixar o lar.
Ouvem-se sirenes, e o choro de uma criança que não sabe do barco que o pai lhe deu:."Talvez esteja no rio meu filho! Ou até no mar!"
Chegam os embaixadores da amizade; os verdadeiros dadores de esperança. Comprometem a vida mas não prometem nada! Como os outros...
Fazem o que têm de fazer: ajudar, servir e até alegrar um menino que perdeu um barco.
Sentem-se maiores por o ajudarem a crescer, e vão-se embora, embora saibam que a tarefa deles não acaba ali.
Cabe-lhes uma vida cheia pela frente. Talvez uma vida com um final precoce, como o do barco, por causa dos rios, dos fogos, dos Homens.
Mas uma vida cheia da vida!
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