14/08/2010

Flor selvagem



Sou flor selvagem, espero que não faças alergia ao meu polém, pois preciso da tua brisa para o transportar e me multiplicar.

A tua chuva miudinha é suficiente para me regar mas, preciso dela todos os dias, não quando chove!

Vem polinizar-me como se fosses beija flor ou querubim, é urgente sugares o meu néctar para que continue viva.

As minhas pétalas são coloridas e alegres para te atraírem mas, a minha raiz é simples e frágil, preciso da tua proteção, preciso que cuides de mim, sempre!

15/03/2010

Caminhando


Enquanto caminho, não tenho tempo para cochichos nem para maçãs doces.
O milho dos campos está maduro e os girassóis já estão abertos.
Ficaram para trás as margaridas e as cerejas mas ainda trago o cheiro do alecrim e das rosas.
Vem por aqui...
Vem comigo, por este lugar onde a dor vai desaparecendo na sombra de cada árvore, e onde o rio vai lavando a saudade que trazemos nos pés.
Não há tempo para sestas nem para pão cozido.
A tenda já está desmontada e os cordões das botas, apertados.
É tempo de ir...
Com os olhos postos no caminho, os fracassos, as desilusões, e as frustrações não fazem parte da paisagem.
De mochila às costas, os impossíveis ficam para trás.
São pesados de mais e a caminhada ainda é longa para carregar-mos pedras inúteis.
Se queres seguir comigo, trás só o essencial...
Chocolate, protetor solar, um sorriso que dure e um amor que não pese.
O resto é o resto: dispensável!
Apressa-te lentamente porque o dia está para nascer e não queremos perder o milagre da mãe natureza a dar à luz.
Vamos por trilhos que não foram calcados por mais ninguém, mas que os nossos pés já conhecem melhor que os olhos. Só temos que ensiná-los ao nosso coração.
Quero mostrar-te um lugar que me dá tudo o que eu não tenho: paz, calma, segurança.
Mas primeiro precisamos de subir para ficarmos mais perto do céu.
É urgente termos vistas largas para vermos o horizonte até ao infinito.
Chegamos...
No cimo desta montanha, vemos um tapete azul sem fim.
É este o meu lugar especial.
Se gostares, podemos demorar-nos.
Montar tenda, acender uma fogueira, porque a manhã ainda tarda e o corpo pede calor.

26/02/2010

Paisagem de mim



Já fui floresta tropical com milhares de plantas e animais sem fim.

Agora sou deserto sem água, sem verde, sem nada para além desta areia fina que seca, que mata.

Já fui trópico, fiz transpirar, beber, despir, apaixonar. Um lugar onde todos dançavam e colhiam alegria.

Agora sou os dois pólos num só, tenho gelo de Norte a Sul e não há aquecimento global por estas paisagens. Aqui os ursos são felizes, não estão em perigo de extinção e a neve não tem medo de derreter.

Já fui campo verdejante com flores de mil cores e borboletas que voavam livres, tinha cheiro a alegria e alecrim.

Agora sou cidade cinzenta de ruído, de poluição, e de um egoísmo que me assombra; repleta de inveja que me deprime.

Já fui rio sem barragens, sem pontes nem barreiras. Aqui ninguém precisava de me atravessar, bastava percorrerem-me por águas doces e soltas.

Agora sou lago estagnado, com águas paradas e esgotadas, sem nascente, sem corrente, sem ter onde desaguar.

Já fui um fim de tarde de verão, com sol e calor, fui mar, praia, areal sem fim.

Agora sou mais um dia cinzento de inverno, onde a neve é rainha e a chuva chega antes do amanhecer. Sou um mar congelado no tempo.

...

Hoje sou árvore sem folhas, campo sem flores, céu carregado de nuvens.

Esta é a minha paisagem...um lugar onde o sol não brilha mais.

19/02/2010

Nascer com o sol


O pôr do sol é magnífico...
Mas, o nascer do sol é a coisa mais sublime que eu alguma vez vi no reino da natureza.
É ver as sombras a tomarem forma de novo.
É ver o candeeiro do mundo a acender-se para todos.
É como nascer de novo sem ser preciso chorar...

O pôr do sol é aconchegante, romântico e nostalgico...
Mas, o nascer do sol dá-nos a esperança e o conforto de podermos começar tudo de novo.
É ver as espetativas da vida a florirem em forma de luz divina.
É ver as metas a serem traçadas e fazermos planos.
É como nascer de novo sem ser preciso morrer!

09/02/2010

Bunke*


Apetece-me acabar como o sol, no fim do dia.
Às vezes, cair como as pedras no precipício.
É o teu sorriso que me salva!

Queria eclipsar-me como a lua, na lua nova.
Às vezes, encolher-me como os ouriços cacheiros no medo.
O teu abraço é que me liberta!

Sinto a alma a rebentar como os balões, no fim da festa.
Às vezes a fé a afundar-se antes de adormecer.
É o teu olhar que me mostra a luz!

Tenho o corpo a desmoronar-se como os prédios em ruínas.
Às vezes, a cara molhada com solidão, como os velhos.
A tua boca é que me cala a dor!

Preciso de chorar como as nuvens, no fim do verão.
Às vezes, tremer como as crianças no escuro.
É a tua voz que me acalma!

Naufrágo todos os dias numa ilha, como ave perdida.
Às vezes, a saudade faz-me penar depois de acordar.
A tua força é que não me deixa desistir!


*abrigo subterrâneo de betão